
Quando eu era criança passava a maior parte do tempo na casa dos meu avós maternos. Eles tinham dois gatos, o Lino, cego de um olho, e o Dudo, cego dos dois. Eles moravam em frente à linha do trem e meu avô me ensinou um truque para jogar o lixo fora: esperar o trem passar e jogar em cima de um vagão qualquer (o trem era de carga), depois ficar olhando o lixo passar. Até meus oito anos essa era minha diversão preferida. Meu avó me deu dois estilingues e me ensinou a atirar, mas eu só mirava nos limões e nunca acertei um passarinho na vida. Meu avô me deixava tomar banho de mangueira no quintal antes de ir pra escola e uma vez foi tirar o carro do estacionamento e me deixou ir sentada na parte de fora, na frente do pára-brisa. Minha mãe viu a cena e ficou bem irritada, mas eu adorei. Meu avô sempre voltava pra casa com uma caixa de Mentex (daí meu vício) e sempre me contava umas histórias absurdas como se fossem verdades absolutas. E eu nunca duvidei que fossem, se hoje me perguntarem se existiu um gato baiano que miava com sotaque, eu vou responder que sim.
O mais estranho é que eu nunca mais pensei nisso. Vim pra Petrópolis aos oito anos, meu avô morreu há quase dois e eu só pensei nisso agora, depois de mais de dez anos. Ele soltou fogos uma vez no meu aniversário, tinha esquecido disso também. Eu fecharia a história com "engraçado...", mas pra ser sincera não acho graça nenhuma nisso, queria lembrar de mais coisas.